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Os pássaros tranformando-se em pessoas andando de bicicleta foi a tradução mais perfeita que vi sobre andar numa magrela. Nunca tinha visto este comercial, achei lindo demais.

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pirata

Fiquei sabendo a história por trás da pirataria na Somália através de uma Twittada do André Dahmer agora há pouco. Replico aqui os textos de Johann Hari e Muuse Yuusuf com tradução de Caia Fittipaldi. Os textos já foram amplamente divulgados na internet, então eles seguem aqui na íntegra:

Johann Hari: estão nos mentindo sobre os piratas

Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê esse artigo, a Marinha Real Inglesa – e navios de mais 12 nações, dos EUA à China – navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilãos de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos ‘ocidentais’ estão rotulando como “uma das maiores ameaças de nosso tempo” têm uma história extraordinária a contar – e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão.

Os piratas jamais foram exatamente o que pensamos que fossem. Na “era de ouro dos piratas” – de 1650 a 1730 – o governo britânico criou, como recurso de propaganda, a imagem do pirata selvagem, sem propósito, o Barba Azul que ainda sobrevive. Muita gente sempre soube disso e muitos sempre suspeitaram da farsa: afinal, os piratas foram muitas vezes salvos das galés, nos braços de multidões que os defendiam e apoiavam. Por quê? O que os pobres sabiam, que nunca soubemos? O que viam, que nós não vemos? Em seu livro Villains Of All Nations, o historiador Marcus Rediker começa a revelar segredos muito interessantes.

Se você fosse mercador ou marinheiro empregado nos navios mercantes naqueles dias – se vivesse nas docas do East End de Londres, se fosse jovem e vivesse faminto –, você fatalmente acabaria embarcado num inferno flutuante, de grandes velas. Teria de trabalhar sem descanso, sempre faminto e sem dormir. E, se se rebelasse, lá estavam o todo-poderoso comandante e seu chicote [ing. the Cat O’ Nine Tails, lit. “o Gato de nove rabos”]. Se você insistisse, era a prancha e os tubarões. E ao final de meses ou anos dessa vida, seu salário quase sempre lhe era roubado.

Os piratas foram os primeiros que se rebelaram contra esse mundo. Amotinavam-se nos navios e acabaram por criar um modo diferente de trabalhar nos mares do mundo. Com os motins, conseguiam apropriar-se dos navios; depois, os piratas elegiam seus capitães e comandantes, e todas as decisões eram tomadas coletivamente; e aboliram a tortura. Os butins eram partilhados entre todos, solução que, nas palavras de Rediker, foi “um dos planos mais igualitários para distribuição de recursos que havia em todo o mundo, no século 18”.

Acolhiam a bordo, como iguais, muitos escravos africanos foragidos. Os piratas mostraram “muito claramente – e muito subversivamente – que os navios não precisavam ser comandados com opressão e brutalidade, como fazia a Marinha Real Inglesa.” Por isso eram vistos como heróis românticos, embora sempre fossem ladrões improdutivos.

As palavras de um pirata cuja voz perde-se no tempo, um jovem inglês chamado William Scott, volta a ecoar hoje, nessa pirataria new age que está em todas as televisões e jornais do planeta. Pouco antes de ser enforcado em Charleston, Carolina do Sul, Scott disse: “O que fiz, fiz para não morrer. Não encontrei outra saída, além da pirataria, para sobreviver”.

O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde jogar todo o lixo nuclear do planeta.

Exatamente isso: lixo atômico. Nem bem o governo desfez-se (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que jogavam ao mar contêineres e barris enormes. A população litorânea começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebês malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes.

Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: “Alguém está jogando lixo atômico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos.” Parte do que se pode rastrear leva diretamente a hospitais e indústrias européias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de “descarregá-los” e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse ‘negócio’, ele suspirou: “Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação, nem prevenção.”

Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma de suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus estoques naturais de pescado pela superexploração – e, agora, está superexplorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de atum, camarão e lagosta; são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.

Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 quilômetros ao sul de Mogadishu, declarou à Agência Reuters: “Se nada for feito, acabarão com todo o pescado de todo o litoral da Somália.”

Esse é o contexto do qual nasceram os “piratas” somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos, como meio de extrair deles alguma espécie de compensação.

Os somalianos chamam-se “Guarda Costeira Voluntária da Somália”. A maioria dos somalianos os conhecem sob essa designação. Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos “aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional”.

Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gângsteres misturados nessa luta – por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos líderes dos piratas, Sugule Ali disse: “Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam nosso peixe.” William Scott entenderia perfeitamente.

Por que os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (dentre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e intrometeram-se no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo… imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra.

A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século 4º AC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou “o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares.” O pirata riu e respondeu: “O mesmo que você, fazendo-se de senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado de ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador.” Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália – mas… quem é o ladrão?

Fonte: The Independent, UK, 5/1/2009 (autoria de Johann Hari)

Tradução de Caia Fittipaldi

………….

Muuse Yuusuf: Somália: A Armada não é solução

A reunião de navios de guerra de mais de 20 países nas costas da Somália é história muito mais complexa do que parece. Alguns desses países são inimigos que jamais cooperaram e até hoje só se dedicaram a tentar destruir-se uns os outros.

É provavelmente a primeira vez em todos os tempos que navios de guerra norte-americanos e chineses navegam lado a lado contra um inimigo comum. Ironicamente, esse inimigo comum não é alguma outra gigantesca aliança naval planetária, mas milícias somalianas nacionais esfarrapadas e famintas, que, por uma razão ou outra, estão decididas a não se render, seja na defesa de suas águas territoriais, como dizem alguns, seja para obter algum dinheiro, em mundo modelado para fazer-desejar a acumulação de riqueza… como o provam os pesqueiros estrangeiros que pescam impunemente nas águas territoriais da Somália.

A Armada, que tem apoio da ONU, conseguiu reduzir o número de ataques piratas, que foram mais de 100 no ano passado. Contudo, apesar da presença da Armada internacional, as milícias somalianas têm em seu poder hoje 270 reféns e oito navios.

Os últimos incidentes, inclusive a recente ocupação de um navio dos EUA e uma dramática tentativa de fuga do comandante, Capitão Richard Phillips, mostram que a Armada fracassou em sua principal missão, de combater e eliminar a pirataria. Há também quem comece a preocupar-se com quanto tempo a Armada terá de permanecer estacionada nas costas da Somália, porque a causa fundamental da pirataria é o fracasso do Estado, problema cuja solução demanda muito tempo.

Mais uma vez, a mídia dominante pinta a pirataria somaliana como pura criminalidade em alto mar, porque a pirataria é crime nos termos da legislação internacional e tem de ser reprimida.

Contudo, exceto alguns poucos veículos (por exemplo, a rede CBC TV do Canadá), nenhum jornal ou jornalista está investigando para informar as verdadeiras causas que se ocultam na pirataria na Somália. Entre essas causas nunca investigadas pelos jornais e jornalistas estão o fracasso do Estado, a pesca ilegal, os depósitos clandestinos de lixo nuclear, a miséria e outras e outras.

Segundo relatórios da ONU, 700 pesqueiros, de mais de 10 bandeiras e saídos dos mais diferentes portos, dentre outros, da Tailândia e do Japão, pescam clandestinamente em águas somalianas desde o início da década dos 90s, o que já provocou desastre ambiental sem precedentes. Muitos pescadores somalianos já denunciaram ataques e abusos praticados por esses pesqueiros. Nas palavras de um pescador somaliano: “Não estão apenas roubando nosso pescado. Também querem nos impedir de pescar”, disse Jeylani Shaykh Abdi. “[Nossa] sobrevivência depende do pescado”, disse ele. E Hussein acusou a comunidade internacional de “só falar sobre a pirataria na Somália, e jamais falar da devastação do nosso litoral, provocada por esses pesqueiros estrangeiros.”

Mesmo que se considere a pesca mecanizada que já atuava antes do colapso do governo somaliano, não se pode dizer que tenha sido responsável pela devastação dos recursos naturais marinhos na Somália, dado que a frota nacional pesqueira jamais passou de poucas centenas de pequenos barcos, que deixaram de operar nos anos 70s, por falta de manutenção.

Relatórios da ONU informam que estão em processo acelerado de extinção várias espécies marinhas nas águas da Somália, e que os recifes de coral já sofreram danos irreparáveis.

É inverossímil que os pescadores somalianos tenham provocado danos tão extensos, porque a comunidade de pesca na Somália é muito pequena, se comparada a outros setores. Empregava em 1990 cerca de 90 mil pessosa, número que declinou sempre, desde então. Os pescadores somalianos usam técnicas e equipamento rudimentares e jamais tiveram acesso aos recursos dos pesqueiros super modernos necessários para a pesca em grande escala – que, essa, sim, é fator decisivo para que algumas espécies estejam à beira da extinção. Além disso, os somalianos não são grandes consumidores de peixe, porque muitos somalianos são tradicionalmente nômades, apreciadores de carne de vaca e de camelo.

Os depósitos de lixo atômico e de lixo industrial em geral em águas da Somália é outro problema que jamais foi investigado ou considerado na cobertura que os grandes jornais têm feito.

É omissão muito estranha, porque desde o início dos anos 90s os relatórios da ONU falam de empresas européias que usavam águas territoriais da Somália como depósito de lixo industrial venenoso, porque essa seria a destinação mais barata para esse tipo de lixo, em todo o mundo. Nas palavras de um técnico da ONU, “a Somalia tem sido usada como destinação para lixo tóxico desde o início dos anos 90s, processo que perdurou durante toda a guerra civil” – diz ele. “As empresas europeias descobriram que é muito barato despejar lixo em águas somalianas; custa cerca de 2,50 dólares por tonelada; na Europa, esses preços são, em média, de 250 dólares/ton. Há todo tipo de lixo tóxico. Chumbo e metais pesados, como cádmio e mercúrio. Há lixo industrial, lixo hospitalar, lixo químico. Há de tudo” – diz Mr. Nuttal, funcionário do Programa da ONU para Preservação do Meio Ambiente [ing. United Nations Environment Programme, UNEP].

Em 2004, quando um tsunami atingiu o litoral norte da Somália, não apenas destruiu centenas de vilas costeiras; também expôs um segredo que, sem o tsunami, permaneceria oculto para sempre no fundo do mar: barris e contâineres enferrujados, com vazamentos, que vieram dar às praias. A natureza encarregou-se de denunciar o crime em andamento.

Os últimos sequestros de barcos estrangeiros coincidem com momento muito difícil na política somaliana, depois de jornais somalianos terem divulgado notícias de que algumas áreas das águas territoriais da Somália terian sido vendidas ao Quênia.

Trata-se de antiga disputa jamais solucionada sobre os limites das águas territoriais dos dois países; e o Transitional Federal Government (Governo Federal de Transição, TFG) da Somália teria assinado um “Memorando de Entendimento” com o Quênia, que permitiria ao Quênia atender as exigência do prazo fixado pela ONU (29/5/2009) para todas as nações que desejassem requerer ampliação de suas águas territoriais para além das atuais 350 milhas náuticas.

Embora o Governo Federal de Transição da Somália tenha rejeitado a acusação, os críticos insistem que um governo de transição não teria nem legitimidade nem competência legal para firmar esse tipo de acordo, que implicaria decisão contrária aos interesses da Somália, a favor do Quênia – país que, para alguns nacionalistas somalianos seria ocupante ilegal de um parte do territória somaliano.

É indispensável que o Governo Federal Provisório cuide de acalmar a indignação pública.

Em conclusão, para salvaguardar as águas territoriais somalianas e seus alegados direitos sobre parte de sua plataforma continental, exijo que o Governo Federal de Transição indique comissão nacional independente para examinar esse acordo entre Somália e Quênia, de modo a proteger as águas territoriais da Somália e, em segundo lugar, para examinar outras opções que ainda hajam, com vistas a cumprir o prazo limite determinado pela ONU e que se esgota dia 29/5/2009. Opção sempre possível, seria o Governo Federal de Transição rejeitar qquer tratado que lhe seja proposto; ou negociar para incluir, nos tratados vigentes, uma cláusula que assegure que a Somália possa renegociar esses tratados, depois de o país estar organizado para fazê-lo. O Governo Federal Provisório deve lembrar também que os grupos de oposição não vacilarão e, sem dúvida, usarão mais esse erro como desculpa para afrontar a autoridade do Governo Federal Provisório. Portanto, é indispensável, agora, que o Governo Federal Provisório tome alguma atitude que vise a acalmar a indignação pública.

Como dizem, tratar um sintoma e curar uma doença são coisas diferentes, que exigem abordagens diferentes. Ao que parece, a comunidade internacional escolheu a via mais fácil: combater a pirataria é tratar o sintoma. Mas, infelizmente, esquecem que é preciso dar atenção à causa de tudo: o fracasso do Estado, na Somália. Só se poderá combater com eficácia a pirataria, se se reconstituir o Estado somaliano.

No meu ponto de vista, a encenação de guerra entre a Armada universal e os piratas somalianos é como ‘guerra’ entre o leão e a gazela. Todos já sabemos, de antemão, quem morrerá. Há um provérbio somaliano que ensina lição clara: “Dabagaallo Aar dilay ma aragteen?” Pode ser facilmente traduzido para todas as línguas do mundo: “Quem algum dia viu a gazela matar o leão?”

Fonte: WardHeer News. Mogadisco, Somália, 12/4/2009. (autoria de Muuse Yuusuf)

Tradução de Caia Fittipaldi

huerta

Canudos, Quilombo dos Palmares, Huerta Orgásmika

Ocupar espaços públicos e transformá-los em espaços de convivência, podem até ser tolerados pelo Estado, agora transformá-los em alternativas para uma alimentação saudável e gratuita para a comunidade, pode ser encarado como uma atitude de desrespeito ao capital e aí a gente já sabe o que pode acontecer – li sobre a Horta Orgázmika lá no Jardinagem Libertária.

Movimentos de Guerrilla Gardening (Assistam esse vídeo!) tem espalhado-se pelo mundo todo. Atitudes desse tipo são urgentes, precisam ser feitas. Recuperar os espaços públicos deve estar na ordem do dia, e se isso estimular as pessoas a interferirem na cidade, melhor ainda.

Ser um agente de transformação na cidade, embora seja o certo a se fazer, aos olhos da lei, pode ser interpretado como vandalismo e incitação ao crime. É a velha desculpa de criminalizar algo que está trazendo benefício as pessoas, mas que não gera receita para nenhum empresário, pelo contrário desestimula as pessoas a consumir. O ganho de consciência da população irá trazer cada vez mais embates com o Estado enquanto iniciativa Privada – assim eu vejo o Estado, uma imensa empresa de favores -, e isso está cada vez mais claro, aqui em São Paulo, a famosa multa ao cicloativista André Pasqualini é o mais claro exemplo disso.

As tranformações sociais estão acontecendo de forma tão rápida e descontrolada às vistas dos velhos donos do mundo, que eles não tem outra alternativa a não ser apelar para a violência. Modelos criativos de participação popular pipocam por todos hemisférios e a internet acelera o processo de absorção dos mesmos. Não há mais volta para isso, os jovens estão cada vez mais gostando e assimilando a sensação de liberdade que estas atitudes oferecem, lutar contra isso, é a maneira mais medíocre e preguiçosa que existe, é como tentar conter a pixação apagando os muros e dando de bandeja muros novos para os ataques. Definitivamente o mundo mudou, e os velhos donos dele ainda tentam lutar contra isso usando as mesmas armas de décadas atrás. Patético, porém previsível. Não se pode esperar de porcos nada além de muita sujeira.

Depois de fazer o curso lá no Ibiosfera e ter contato com a realidade da permacultura, eu fiquei com uma puta vontade de montar um minhocário pra gente. Depois de ver a “performance” do Peri Pane, eu fiquei decidido.Sei que é meio redundante dizer, mas pense um pouquinho só na quantidade de lixo que produzimos todos os dias. Tem gente que pensa: “Ah! É só reciclar e pronto.” Mas não é bem assim, eu nem me incomodo mais com o que pode ser reciclado ou reutilizado – porque de certa forma, isso já virou um mercado em forte expansão no mundo todo-, o que me incomoda mesmo, é saber que muito do lixo que nós produzimos não pode ter outro destino que não seja os aterros sanitários, ou seja, tomará um enorme espaço durante milhares de anos.

Aqui em casa nós separamos o lixo porque no condomínio tem coleta seletiva, então não tem desculpa para não fazer, além do que, quero que minha pequena cresça convivendo com isso de forma natural. Consegui encontrar umas caixas legais em um mercado próximo de casa e depois de fuçar muito na internet para entender todo o processo tomei coragem e fui atrás de conseguir as minhocas. Entrei em contato com o pessoal da AAO, e de forma muito gentil eles me cederam o telefone de uma minhocultora aqui de São Paulo. Ela faz um trabalho muito legal, coletando o lixo orgânico de boa parte da rua dela lá na Lapa: Os vizinhos separam o lixo orgânico e ela alimenta suas minhocas, um exemplo de uma vizinhança ideal, com cooperação e idéias sustentáveis. No final de semana passado fui até lá buscar as dita cujas.

Uma semana depois, em sua nova casa, as minhocas estão tranquilas. Por enquanto parece que tenho conseguido controlar a umidade aos níveis aceitáveis por elas. Nos primeiros dias, com a caixa muito úmida, percebi que elas tentaram “fugir” – não uma ou duas como é natural, mas dezenas delas mesmo -, depois de colocar mais matéria seca, as coisas se acalmaram e agora apenas uma ou outra, deixa de comer para se aventurar pela caixa. Vou continuar observando e fazendo os relatos aqui, porque percebi que tem muita gente tentando fazer um desses.

O sistema é muito fácil de montar e aqui em casa caiu como uma luva, em uma semana, nós praticamente não jogamos nada fora, com exceção de material higiênico e as famosas embalagens de plástico metalizadas, quase tudo foi para a reciclagem ou para o minhocário.

Se você dispoêm de uma grana extra, pode comprar o minhocasa, que é o sistema que eu “copiei” aqui em casa. Eu teria comprado se pudesse, afinal de contas, o minhocário pode ser interpretado como mais um item indispensável numa “cozinha moderna”, como um fogão ou uma geladeira, certo? Mas como a grana está curta, eu tentei fazer com minhas próprias mãos.

Atalhos:

– Faça você mesmo.

– Minhocário no Ecoprático.

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Minhoca a vontade em sua nova casa.

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Material orgânico misturado a um pouco de húmus.

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Separando as caixas.

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O sistema pronto. 3 caixas empilhadas, sendo as duas de cima com os fundos furados, permitindo a passagem das minhocas. A última de baixo retém o excesso de humidade das caixas de cima.

circo

Neste final de semana fomos ao circo, mais precisamente no espetáculo da Academia Brasileira de Circo: “Circo dos sonhos“. Vira e mexe a gente acaba indo pra debaixo dessa tenda de maravilhas. Nas duas últimas vezes que tínhamos ido eu acabei lá dentro do picadeiro, os palhaços olham por todas as cadeiras e quando me veêm: Você! Lá pra cima. É batata. Isso se repete também em festinhas infantis, não tem jeito, se eles me veêm, eu estou numa puta enrascada. Na última vez que fomos ao circo, “escolhido” por um palhaço para representar o time masculino, eu participei daquela famosa brincadeira em que você tem que ficar correndo em volta de um taco de baseball olhando para o chão, e ao levantar precisa acertar um alvo. Pois bem, eu corri, corri e não levantei, fui ao chão de uma vez, e o pior, bati com a cabeça – protegida por um capacete, claro – na cabeça da minha adversária, os dois ao chão e uma cara de mané depois.

Ao sairmos de casa fui buscar uma amiga e sua pequenina que iam nos acompanhar, comentei sobre como era legal ir ao circo e sobre as minhas presepadas no picadeiro, e especiamente sobre a perseguição que os palhaços infligem a minha pessoa, seja no circo ou em festinhas infantis. Chegamos lá, vimos as primeiras atrações e quando os palhaços entraram em cena, começaram a cantar uma famosa canção italiana, em que no refrão todos precisavam repetir um “hei!”. Pois bem, eles desceram do picadeiro, vieram direto na minha direção:

– Você! – um deles apontou pra mim ao que o outro respondeu:
– Ele!

E eu com aquela cara de mané, sem saber o que fazer, aliás uma situação típica de quem é pego por palhaços. Continuaram a canção do meu lado e no refrão os dois olharam pra mim:

– Hei! Eu gritei.
– Foi muito baixo vai, de novo! O palhaço careca falou.
– Hei! Dei um belo grito, como se daquilo dependesse minha liberdade.
– Muito alto. Vai lá pra cima.

Fui lá pra cima e participei do espetáculo. Zoado por um palhaço, mais uma vez.

P.s: Acho que o palhaço é o mais próximo que um ser humano pode chegar da liberdade. A sua falta de pudor, a acidez com que eles abordam o público e por vezes sua inocência, nos fazem entender o quanto somos pequenos e indefesos.

carcode

Eba! Mais um recorde de congestionamento na cidade! Estamos quase chegando nos 300, hein? Foi por muito pouco, 293 km, mais alguns carrinhos na rua e chegaríamos lá, não foi dessa vez. Mas mais uma chuvinha e pimba! Não podemos perder a esperança galera, vamos lá! Carros na rua! Fotinhos do caos aqui.

oamor

Pixo aqui pertinho de casa, foi feito estes dias lá no viaduto Guadalajara. Poesia urbana, né? Concordo plenamente, inclusive com a mesma “entonação”. Me lembrou o primeiro lambe que fiz: “Vai estudar filho da puta!”. Pois é, a sutileza sempre foi o meu forte.

O autor

Valdinei Calvento - ilustrador.

Gente boa, tranquilão, bom pai, anda de bicicleta (e acredita nela), curte desenhar, plantar umas sementinhas, acredita em algumas pessoas, luta por elas, e sempre que possível, corre de São Paulo.

Bicicleta Girassol é o meu portifólio.

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