Domingo, 5:30 da manhã e a mãe do Paulo bate a minha porta: “Ele só está tomando café, pediu pra você esperá-lo que ele vai, tá?” Tá bom. Era o começo do pedal mais longo que fiz até agora, pouco mais de 100 kilômetros, nós iríamos até a Cratera de Parelheiros. Café tomado, frutas no alforje, fomos até a faculdade São Judas, onde encontraríamos o Leandro, que mais tarde achou melhor não ir até Parelheiros. Chegamos na Praça do Ciclista ainda faltavam 20 minutos para as 7:00, horário combinado para começarmos o pedal. Sentado no canteiro da praça comecei a conversar com um morador de rua que me abordou,  se liga no papo:

– Opa, bom dia. (Me estende a mão suja e oleosa que a pouco tirava piolhos da barba)
– Bom dia amigão. (Apertei sua mão)
– É… Eu sou morador de rua e dependente químico…
– Ah é? Mas você fuma pedra mano?
– Crack?
– Isso, pedra.
– Não, não… Eu fumo eventualmente maconha.
– Fica tranqüilo então mano, isso nem é um problema tão grande assim.

E o papo seguiu até que ele envergonhado, saiu sem dar maiores explicações.

Seguimos até a estação de trem do Grajaú, onde às 9:00 encontraríamos mais uma parte do grupo que faria o pedal até Parelheiros, pelo trajeto andamos pela Ciclo Terra, um trecho da Marginal Pinheiros que pessoas e ciclistas tem usado como forma de “fugirem” do trânsito pesado dali,
praticamente uma ciclovia improvisada pela ação civil, já que o Estado, quase sempre omisso neste aspecto não tem feito seu papel.

Encontramos a galera na Estação Grajaú e seguimos rumo a Cratera! Engraçado, foi durante o pedal a galera especulando sobre como seria esse imenso buraco, já que quase ninguém tinha idéia do que veríamos por lá.

Andamos pela “Ciclovia da Colônia”,  que segundo o Pasqualini, junto com a Ciclovia da Radial Leste são as únicas oficiais da cidade que não estão dentro de Parques. Pequenininha demais ela, e ao que pude ver meio sem função, apenas um trecho no meio de uma estrada. Próximos do nosso destino ainda rodamos um pouco perdidos, por que passamos a entrada da estrada que nos levaria até a Cratera.

Ao chegarmos lá, o que vimos foi uma imensa área ocupada por famílias carentes, o meio da Cratera tornou-se um imenso bairro, movimentado demais, com uma rua principal onde, pessoas, cães, carros, motos, bicicletas e toda sorte de veículos brigavam por espaço pra transitar. Andamos um pouco pelo chão de terra de lá e paramos em um bar para tomarmos alguma coisa. Comentei com o Albert que tinha ficado um pouco assustado ao ver que aquele imenso espaço tinha sido ocupado daquele jeito de forma tão desordenada, e pensando que pela importância que o local possui, se fosse num país como os EUA quilo teria virado um imenso parque, daqueles que vendem souvenirs de ovnis, ets. “Isso tinha virado uma Las Vegas!”, ele disse.

É foda, é nessas horas que ficamos totalmente indignados com a falta de planejamento e políticas públicas que mapeiem as cidades e pensem nos bairros como centros de convivência dinâmicos, priorizando a vida sempre. Difícil.

Andamos mais um pouco por lá e observei os detalhes de cada rua, das pessoas, dos cães, das crianças que num misto de felicidade e surpresa vibravam a cada vez que viam o Galo passando com a bike dele, aliás, impossível andar com ele e não dar boas gargalhadas. Deixamos a Cratera e tivemos que dar uma imensa volta pois pelo trajeto que o Pasqualini tinha feito contornaríamos próximo a um presídio que tem por lá – origem, é claro da ocupação desenfreada da Cratera -, mas que segundo o dono do Bar que paramos, era impossível passar por lá. “Vocês são loucos! Ali não passa ninguém, é uma área de segurança máxima, os caras ficam de cima do muro olhando tudo, nem tenta que vocês vão se arrepender”. Depois de pombas voando com celulares nas costas, não acho que eles iriam curtir um bando de ciclistas cheios de mochilas passando ali por perto.

Paramos para um almoço em Embu Guaçu e de barriga cheia, pegamos a estrada até o Rodoanel. Uma galera passou um pouco da entrada e tive um tempo, junto com outros que ficaram, para olhar as obras enquanto o Pasqua ia atrás deles. Tenho acompanhado uma lista de discussão que fala sobre os impactos ambientais desta obra e realmente olhando aquilo, é assustador a capacidade que o ser humano tem de manipular os espaços, por onde as máquinas passam literalmente rasgando a terra, a impressão que se tem é a de um gigante arando o chão.

O grupo reunido de novo entramos na imensa vastidão de terra que é o Rodoanel quando o sol cansado, já ia se acomodando no horizonte, seguir por ali foi de certa forma um risco assumido, pois não tínhamos a certeza se conseguiríamos sair antes de escurecer, mas como eu sempre digo: “Com aventura é bem melhor!”. E além do mais, o que somos senão histórias ambulantes esperando para acontecer? Pedalávamos até um morro e de lá nos lançávamos até o próximo. Por várias vezes tínhamos que fazer uns contornos, pois por conta de diferenças geológicas no terreno, era impossível atravessar em linha reta. “São só mais três subidas galera!”. E o sol sumindo. O breu chegou mesmo quando esperando o Galo arrumar seu paralamas em cima de uma ponte, dezenas de
pernilongos começaram a nos atacar, a galera já tinha sumido no horizonte e a gente ali contando com um pedaço de arame da construção para dar um jeito. Olhei para o final da estrada e vi uma luzinha piscando, o Pasqua voltou e saímos rasgando por um trecho que já tinha asfalto, ainda quente até. Foi bom mas durou pouco, seguimos o resto pela terra e sem nenhuma iluminação a não ser as das bikes.  Encontramos o resto do grupo e finalmente saímos do Rodoanel, pegamos o asfalto,
fizémos mais um pit stop e no metrô Capão Redondo nos despedimos do Pasqua e do Galo. O resto da galera ainda andou de trem e fez mais um pedal até suas casas. Depois de pedalar até a Paulista eu me despedi da Nat, do Luca, do Marcelo e da Mari na Praça do ciclista.

Mais um Pasqua training realizado e mais uma boa história pra contar. Só agradecimento pra galera que foi, sensação boa pra caramba, tipo uma família mesmo. Vamo que vamo!

Ciclovia da Colônia.

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