Texto originalmente publicado no Casa de Tijolinhos.

Eu bicicleto São Paulo.
Por V. Calvento.

Sábado tranquilo , poucas horas depois de o sol dar a cara, dois amigos já me esperam a alguns quarteirões de casa. Pedalo por ruas vazias de gente, mas cheias de inspriração. Os carros rareiam, mas já afrontam a sutileza do vôo de alguns pardais que disputam restos no chão da praça. Paro um pouco para arrumar a garrafa de água que não pára de pular no engradado que carrego no bagageiro da minha bicicleta e sigo olhando pros meus pés girando. Fico pensando por um instante que daqui a pouco essas ruas estarão lotadas de gente apressada, buzinas e o barulho ensurdecedor do egoísmo que carregamos com a gente o tempo todo.

Um abraço forte, um aperto de mão e um beijo, estamos prontos para pedalar até o parque do Tietê. Os pedais começam a girar e as conversas surgem. O tempo todo observamos a cidade que nos cerca: os buracos que precisamos desviar, as tampas de bueiro mal encaixadas, grades depredadas em volta das árvores que seguem um critério muito estranho de plantio, as frestas debaixo da ponte que lançam os raios de sol com toda sua intensidade contra nossos olhos. Andamos pela Marginal Tietê onde alguns motoristas insistem em tirar finas mesmo com a via completamente vazia para o tráfego, penso nas frustrações que um motorista desse tipo carrega consigo, e imagino como ele se sentiria andando com a gente naquele momento.

Entramos nos limites do Parque e lembro de uma foto que vi de uma ciclovia em Londres onde o asfalto é pintado de azul e não vermelho como as ciclovias daqui. – Pintar de vermelho chama mais a atenção, aparece melhor na foto do helicóptero, rs. Talvez meu amigo tenha razão, ou seja só mais uma norma que enfeia a cidade ao invés de torná-la mais agradável, imagino que andando no azul me sentiria pedalando sobre as águas, como a maioria dos córregos que foram tapados para dar lugar ao asfalto que impermeabilizou e segregou minha cidade.

Pedalamos por alguns instantes ao lado das margens do rio Tietê e próximos de algumas casas na periferia da Zona Leste. Não existe contraste em nada, as casas foram feitas exatamente para integrarem-se ao rio, foi o jeito que algumas pessoas encontraram de viver com um mínimo de dignidade por aqui. Fecho os olhos, os coço e lembro das ciclofaixas de lazer que ligam os Parques cheirosos de São Paulo entrecortando casas que parecem feitas para agredir o passante, tamanha sua imponência, tamanha sua arrogância, aí sim eu sinto o contraste, aí sim me sinto constrangido.

Vejo as obras que seguem nessa ciclovia que está sendo construída como compensação ambiental pelo estrago que um político qualquer de São Paulo fez na Marginal Tietê. Lembro de acompanhar as obras e conversar com os homens que derrubavam árvores com décadas de vida para dar espaço a mais algumas pistas de rolamento, garantia de apoio e super faturamento comentamos entre amigos.

Dois garotos passam empinando suas bicicletas e fazendo piada das bananas que carregava no engradado, paramos para conversar e instantes depois nós cinco seguimos juntos voltando para o início da ciclovia, os papos são sobre futebol e um cachorro que quase caiu dentro do córrego fugindo de uma patrulha da polícia ambiental que passava por lá. Eles param para jogar bola no rachão e ficamos ali comentando sobre a habilidade de um deles: – O moleque tem malemolência mano! Um assovio alto, um aceno com a mão e nos despedimos para voltarmos para casa. Paramos em um posto, e algumas mentiras, promessas e contradições depois, volto pra casa com a sensação de estar vivo de verdade.

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