Precisava estar na Marques de São Vicente as 8:00 da manhã para uma conversa anterior a uma audiência. Moro no Belenzinho e levaria aproximadamente uns 25, 30 minutos pra chegar até lá num pedal tranquilo. Uma das coisas que quem anda de bicicleta em São Paulo conhece bem é a dificuldade para estacioná-la com segurança sem ter que acorrentá-la aos postes. Sempre checo antes se alguma das estações de metrô próximas do local possuem bicicletário, vi que na estação Armênia e a Barra Funda tinham mas estavam um pouco distantes do local exato onde eu precisaria estar. Fiz uma busca pela rua no google maps e usei o street view: opa! vários estacionamentos próximos ao local. Estava resolvido o problema, em partes é claro.

A imensa maioria dos estacionamentos não aceitam bicicletas, eles dizem que não tem onde colocar, que não podem responsabilizar-se, inventam de tudo para não aceitarem a bike por lá, mas uma coisa que percebi ao longo do tempo e precisando desse serviço vários vezes é que humanos são humanos e nada como uma boa conversa para “dobrar” um ser algumas vezes rude.

Acordei cedo, pedalei pra lá e ao chegar dei uma volta no quarteirão, analisei os estacionamentos menores que normalmente são tocados por seus próprios donos – o que facilita muito uma conversa, pois funcionários na maioria das vezes dizem que o patrão é que não autoriza as bikes -, e entrei pra primeira conversa.

– Bom dia, gostaria de saber se posso estacionar minha bicicleta junto das motos.
– Bom dia, infelizmente não dá bacana, mas os dois estacionamentos da rua do lado aceitam, só virar a direita aí, você vai no Fórum?
– Isso, audiência.
– Só virar a direira.
– Pô, muito obrigado então.

Virei a direita e entrei no estacionamento.

– Bom dia! Posso estacionar a bicicleta, né? – Ao que a senhora que tomava conta do estacionamento respondeu:
– Não, não. Não tem onde colocar
– Mas é que o rapaz do estacionamento ali da avenida me disse que vocês aceitavam bicicletas, e eu tenho uma audiência aí…
– Ah! Que horas que é a sua audiência?
– Umas 9 eu acho, por aí.
– Ah, então faz assim coloca ela aqui atrás da cabine, você tem cadeado pra prender ela na coluna?
– Tenho sim, sem problemas. Eu sempre deixo ela presa.
– Então tá tudo bem, deixa ela presa aí.
– E como a gente faz? Cobra por hora…
– Não, imagina, deixa ela aí, eu tomo conta e assim que você sair é só passar aqui, eu fico até as 12:00.
– É mesmo, muito obrigado então!
– Boa sorte lá na audiência!
– Opa, muito obrigado.

Fiquei esperando um pouquinho a abertura do prédio e quando entrei percebi um paraciclo lá dentro, rs. Portanto se precisar ir ao Fórum Trabalhista na Marquês saiba: Tem paraciclo logo na entrada.

Terminada a audiência retornei para o estacionamento e a senhora toda feliz ao me ver disse:

– E aí? Deu tudo certo lá? Ganhou?
– Nada, fui só testemunha pra uma amiga…
– Ah tá, pode pegar a bicicleta aí. Vai com Deus viu?
– Muitíssimo obrigado, bom dia e bom trabalho aí pra vocês!

Escrevi sobre esse fato pra falar de uma coisa que a cada dia que passa percebo mais: A humanização mesmo, a troca de conversas, de reconhecer no outro um ser humano, alguém que talvez precise de uma força. Durante alguns anos trabalhei atrás de um balcão atendendo as pessoas e me recordo bem dos conselhos de minha vó para tratá-las bem, com educação, e via isso nos comerciantes das lojas do lado, uma sapataria e uma “casa de cortinas”, dois estabelecimentos de imigrantes, um português e um espanhol. Me sinto um pouco velho e até mesmo saudosista ao lembrar disso, mas percebo que se tivermos mais bicicletas nas ruas este tipo de situação tende a ser mais presente. O próprio estímulo aos comércios de bairro, aquelas lojinhas que víamos muito como quitandas, sapatarias, mercadinhos tendem a se fortalecer – mas isto é conversa pra outro post.

Andando de bicicleta você percebe isso, durante diversos momentos do pedal você acaba conversando com alguém, ou mesmo acenando, gesticulando, trocando olhares. Por um momento essa imensa cidade de concreto cinza passa a tornar-se uma cidade de interior, pela co-relação que se estabelece ali. Você nota a cidade de verdade.

Enfim, um tijolinho por vez.

Vamo que vamo.

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