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Violão de cinco cordas? Pode? Pode, claro que pode, rs.

Fala galera!

Faz algum tempo que tivémos a idéia de montar uma oficina para passar adiante um pouco do conhecimento que temos sobre algumas técnicas que quando bem aproveitadas podem servir de um meio prático, rápido e barato de fazer material de divulgação.

Nessa primeira oficina teremos cursos rápidos de stencil, técnicas de silk screen em tecido e adesivo (tinta vinílica).

Durante um dia inteiro, a partir da 13:00, estaremos apresentando as técnicas e pondo a mão na massa. Para participar é indispensável fazer a confirmação através do email aleba70@gmail.com para podermos organizar direito, afinal também teremos comida vegana, suco e cerveja.

A contribuição sugerida é de R$ 5,00 para despesas com materiais e a organização.

 

Texto originalmente publicado no Casa de Tijolinhos.

Eu bicicleto São Paulo.
Por V. Calvento.

Sábado tranquilo , poucas horas depois de o sol dar a cara, dois amigos já me esperam a alguns quarteirões de casa. Pedalo por ruas vazias de gente, mas cheias de inspriração. Os carros rareiam, mas já afrontam a sutileza do vôo de alguns pardais que disputam restos no chão da praça. Paro um pouco para arrumar a garrafa de água que não pára de pular no engradado que carrego no bagageiro da minha bicicleta e sigo olhando pros meus pés girando. Fico pensando por um instante que daqui a pouco essas ruas estarão lotadas de gente apressada, buzinas e o barulho ensurdecedor do egoísmo que carregamos com a gente o tempo todo.

Um abraço forte, um aperto de mão e um beijo, estamos prontos para pedalar até o parque do Tietê. Os pedais começam a girar e as conversas surgem. O tempo todo observamos a cidade que nos cerca: os buracos que precisamos desviar, as tampas de bueiro mal encaixadas, grades depredadas em volta das árvores que seguem um critério muito estranho de plantio, as frestas debaixo da ponte que lançam os raios de sol com toda sua intensidade contra nossos olhos. Andamos pela Marginal Tietê onde alguns motoristas insistem em tirar finas mesmo com a via completamente vazia para o tráfego, penso nas frustrações que um motorista desse tipo carrega consigo, e imagino como ele se sentiria andando com a gente naquele momento.

Entramos nos limites do Parque e lembro de uma foto que vi de uma ciclovia em Londres onde o asfalto é pintado de azul e não vermelho como as ciclovias daqui. – Pintar de vermelho chama mais a atenção, aparece melhor na foto do helicóptero, rs. Talvez meu amigo tenha razão, ou seja só mais uma norma que enfeia a cidade ao invés de torná-la mais agradável, imagino que andando no azul me sentiria pedalando sobre as águas, como a maioria dos córregos que foram tapados para dar lugar ao asfalto que impermeabilizou e segregou minha cidade.

Pedalamos por alguns instantes ao lado das margens do rio Tietê e próximos de algumas casas na periferia da Zona Leste. Não existe contraste em nada, as casas foram feitas exatamente para integrarem-se ao rio, foi o jeito que algumas pessoas encontraram de viver com um mínimo de dignidade por aqui. Fecho os olhos, os coço e lembro das ciclofaixas de lazer que ligam os Parques cheirosos de São Paulo entrecortando casas que parecem feitas para agredir o passante, tamanha sua imponência, tamanha sua arrogância, aí sim eu sinto o contraste, aí sim me sinto constrangido.

Vejo as obras que seguem nessa ciclovia que está sendo construída como compensação ambiental pelo estrago que um político qualquer de São Paulo fez na Marginal Tietê. Lembro de acompanhar as obras e conversar com os homens que derrubavam árvores com décadas de vida para dar espaço a mais algumas pistas de rolamento, garantia de apoio e super faturamento comentamos entre amigos.

Dois garotos passam empinando suas bicicletas e fazendo piada das bananas que carregava no engradado, paramos para conversar e instantes depois nós cinco seguimos juntos voltando para o início da ciclovia, os papos são sobre futebol e um cachorro que quase caiu dentro do córrego fugindo de uma patrulha da polícia ambiental que passava por lá. Eles param para jogar bola no rachão e ficamos ali comentando sobre a habilidade de um deles: – O moleque tem malemolência mano! Um assovio alto, um aceno com a mão e nos despedimos para voltarmos para casa. Paramos em um posto, e algumas mentiras, promessas e contradições depois, volto pra casa com a sensação de estar vivo de verdade.

Carros blindados e almas nem tanto.

Não há novidade no que vou dizer, mas me senti inclinado a escrever mesmo assim.

Ao saber da notícia de que um estudante havia sido baleado na cabeça por assaltantes na USP, fiquei pensando sobre um detalhe que me deixou mais triste com a situação: O carro do rapaz ao que soube estava blindado, e segundo seus pais ele teria dito para ficarem tranquilos por conta disso. Sou pai e não consigo nem imaginar o tamanho da dor deles, emano daqui muita força e luz para superarem essa perda que além de irreversível, dificultará suas respirações para sempre.

Uma cidade onde sentir-se seguro é estar preso dentro de escritórios, casas e carros, não me parece uma escolha acertada, comprar essa pseudo-segurança isolando-se dos demais.

É um modelo perverso, que contempla quem tem dinheiro e destrói a cidade e seu sistema público como um todo, empurrando cada vez mais gente para essa sensação bizarra de exclusividade que é ter coisas materiais, e dinamita as relações humanas, precariza a vida nela. Senão vejamos as praças e ruas vazias aos finais de semana, as pessoas vivem com medo delas mesmas, não relacionam-se nem com seus vizinhos, isolam-se em suas fortalezas e deixam a vida passar lá fora.

Nosso país está crescendo a um ritmo acelerado e ao meu ver totalmente desregulado, priorizando o individualismo ao invés da união por meio da educação e convivência, escolas e professores destituídos de investimentos e qualificação são a prova mais concreta disso. Consumo excessivo, sem critério, essa busca estranha por ascensão social, e consequentemente o passaporte para o tenebroso mundo dos vips, esta “raça” medonha de pessoas que frequentam lugares onde de alguma forma encontram um pequeno conforto para suas angústias e temores, mesmo que isso custe a longo prazo construir um fosso de segregação. Sinto muito, mas não é possível viver com exclusividade, não há ineditismo na vida, ela é feita de relações o tempo todo.

Temos o caso de Higienópolis que aconteceu há alguns dias atrás, o medo da tal “gente diferenciada”. Fico pensando como deve ser viver com medo de ir a padaria, viver com medo de ir ao parque, viver com medo de pessoas na rua. Situação triste, muito triste. Não questiono a busca de ninguém por melhores condições de vida, ambição até, o que realmente acho desastroso, é ir aos poucos distanciando-se da vida de verdade, ir afastando-se da vida na cidade como ela é, feita de pessoas em primeiro lugar, mas com problemas e distorções que precisam ser corrigidos com nossas próprias mãos e não por máquinas compradas com um cartão de crédito qualquer em um clube de compras vip.

Problema de auto-afirmação é óda.

Devagar e sempre.

O autor

Valdinei Calvento - ilustrador.

Gente boa, tranquilão, bom pai, anda de bicicleta (e acredita nela), curte desenhar, plantar umas sementinhas, acredita em algumas pessoas, luta por elas, e sempre que possível, corre de São Paulo.

Bicicleta Girassol é o meu portifólio.

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Gostou dos desenhos e textos? Odiou? Não tem problema, se estiver afim, pode usar, fica à vontade. Tudo o que está aqui é seu também. Se quiser, é claro.

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